sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

A Encanto das Palavras Mágicas

É curioso revisitar textos antigos e me deparar com várias formas diferentes que eu tinha de me expressar.

Muito antes da invasão das mídias sociais, com seus momentos ínfimos e descartáveis, construí pensamentos, mirabolei ideias (será que isso é verbo?) e criei contos e histórias que ficaram guardados no tempo, gravados no espaço cibernético.

No mundo da blogosfera, a gente desconhecia quem estava do outro lado, fisicamente. A gente se satisfazia com a leitura e se deliciava com outras ideias e outras formas de pensar a vida, enxergar o mundo e interpretar realidades. A conexão se dava em uma profundidade mais sináptica, mais estruturada no pensamento e mais relacionada a ideias e ideais.

Cada membro dessa comunidade tinha uma importância ímpar, e nos divertíamos com os avessos de pensamentos uns dos outros. Era instigante, apaixonante e, a cada texto, um pouco mais de cada um de nós era exposto, conhecido, respeitado e comentado.

Ah! É verdade. Éramos comentados! Os amigos sem face eram donos de palavras que acenavam ou afastavam o que defendíamos e, ao mesmo tempo, entabulávamos imensos e respeitosos diálogos sobre essas concordâncias e discordâncias tão próprias, tão nossas.

Como eram mágicas essas trocas.

Como eram interessantes esses conteúdos.

De repente, a internet ganhou ainda mais velocidade. Com ela, vieram mais imagens, menos textos, mais vídeos, menos pensamentos. As palavras, antes ululantes em nossas telas, cederam espaço para aquela foto ou aquele vídeo, naquele lugar, que deixou de ser uma detalhada e precisa descrição e se tornou uma representação digital de uma lembrança que urge ser compartilhada.

Navegando por antigas publicações, percebo que fui perdendo o hábito da escrita e da leitura, postos no escanteio pela preguiça de editar pensamentos, pela fugacidade — e por que não falar em facilidade? — dos vídeos, que valeriam mais que um milhão de palavras, e pela enxurrada de mensagens curtas em nossas diversas e quase infinitas redes sociais. Me rendi às fotografias com apenas uma linha de legenda, adornada por meras cinco hashtags, e aos vídeos precisamente editados para um público desconhecido, que muitas vezes sequer se atenta aos detalhes pensados em cada transição, cada movimento, cada marcação.

Agora, tentando retomar o hábito da leitura, vejo o quanto estou acelerado e o quanto da minha atenção ficou comprometida quando percebo que, blimblom (gente, que onomatopeia é essa?), chegou mensagem no meu telefone.
Enquanto bato minhas asas de metal, aproveito meu tempo sem conexão para dar mais uma chance a esse hábito tão prazeroso de escrever, contorcer neurônios e aguçar o olhar para dentro de mim. Deixar que essa observação se transponha em texto: essas sensações, esses sentimentos, essas ideias e essas palavras.

Não quero fazer promessa alguma; já perdi as contas de quantas delas eu quebrei. Mas revelo meu intento de relatar, mais uma vez, essas minhas aventuras, desvelando passos e repassos, nesse exercício delicioso de marcar com tinta (estou sendo nostálgico, me deixe!) e perpetuar criações minhas para que permaneçam intactas, mesmo quando, por algum motivo, eu não esteja mais aqui.

Enquanto isso, também vou girando fotos e vídeos digitais; afinal de contas, eu também me rendi a eles. Desejo apenas que minhas palavras, imbuídas de tanto carinho e pensamento, tenham a mesma oportunidade de permanecer vivas, pulsantes e vibrantes, desenhando meu caminho em misturas diversas que mesclam a ampla miríade de sentimentos que vivemos à mágica de cada tique de nossos relógios.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

A Obrigação da Bondade (Sobre as Festas de Fim de Ano)

 O Natal é frequentemente apresentado como um evento divino, espontâneo, quase inevitável — como se tivesse simplesmente caído do céu junto com neve, pinheiros e anjos afinados. Na prática, ele é um produto histórico extremamente bem editado, pensado para organizar emoções coletivas e padronizar comportamentos. Uma data que diz quando você deve ser generoso, quando deve perdoar desafetos e, principalmente, quando deve suspender o pensamento crítico em nome do “clima”. Nada mais eficiente para controlar massas do que um ritual emocional obrigatório disfarçado de amor universal.


Do ponto de vista econômico, o Natal é um milagre — não bíblico, mas capitalista. Ele transforma afeto em mercadoria e culpa em estratégia de venda. Se você ama, compra; se não compra, explica. Crianças aprendem cedo que carinho vem embrulhado, adultos aprendem tarde demais que o espírito natalino vence qualquer planilha financeira. Tudo isso embalado por um discurso moral que faz do consumo uma virtude e da recusa um pecado social. Afinal, questionar o excesso em dezembro é quase o mesmo que estragar a ceia.


A Igreja Católica, mestre histórica da sobreposição simbólica, apenas fez o que sempre soube fazer bem: pegou festas pagãs profundamente enraizadas e trocou o rótulo. O Yule, celebração do solstício de inverno no hemisfério norte, marcava o renascimento do sol, o retorno gradual da luz após o período mais escuro do ano. Era um rito cósmico, ligado à natureza, aos ciclos e à sobrevivência. Em vez de combater isso, a Igreja achou mais prático reaproveitar: onde havia sol, colocou-se o Salvador; onde havia renascimento da luz, instalou-se o nascimento de Cristo. Mudou o discurso, manteve o rito e garantiu adesão.


Curiosamente, essa apropriação vem acompanhada de um conveniente apagamento seletivo. Enquanto o Yule foi absorvido e ressignificado, Litha — o solstício de verão, que celebra o ápice da luz, a abundância e o excesso de vida — nunca interessou tanto. Afinal, Litha fala de potência, autonomia e celebração do agora, não de culpa, espera ou redenção futura. Não combina muito com uma teologia que prefere sujeitos contidos, obedientes e sempre em dívida simbólica. Melhor celebrar o nascimento na escuridão do inverno do que o poder pleno da luz no verão.


Para fechar o pacote, entra o discurso da “renovação” colado ao fim do calendário gregoriano. Vende-se a ilusão de que o simples virar de uma data tem poder de limpeza moral e existencial. Promete-se recomeço, mas nunca ruptura; mudança, mas nunca transformação real. O Natal, assim, vira a joia da coroa da engenharia simbólica: mistura paganismo reciclado, religião institucional, consumo desenfreado e uma falsa sensação de renascimento. Questionar isso tudo não destrói o encanto — só revela que, por trás das luzes piscando e do coral ensaiado, sempre houve alguém muito empenhado em decidir por você o que sentir, quando sentir e, principalmente, quanto gastar.


domingo, 16 de agosto de 2015

Snapchat: Nu & Cru

Eu já entendi que o mundo resolveu se expor. De uma forma geral: seja pelo Facebook, Instagram, Foursquare, Swarm, Tumblr, Twitter, WhatsApp e, mais recentemente, Snapchat.

Eu acabei entrando na onda. E adorei, preciso afirmar e reconhecer.

Esse novo brinquedo virtual é uma espécie de Big Brother, no qual você escolhe qual câmera e qual pessoa (personalidade ou não) você quer "espiar". Obviamente, os vídeos e fotos postados não são aleatórios, já que o usuário é quem os publica. E tendo uma duração máxima de apenas 10 segundos, acaba-se tendo uma necessidade de concatenação de pensamentos que é vista apenas na limitação de caracteres do Twitter.

E acontece de tudo: desde um "bom dia" descabelado, imagens direto do banho, comentários alusivos ao prato de qualquer refeição e gravações daqueles pensamentos que temos enquanto nos deslocamos ao nosso trabalho, a incursões aos bastidores das principais produções de TV, teatro e cinema do país e do mundo.

Muitas transmissões são chatas, mas a maioria te convence pela falta de produção. É apenas uma pessoa, com um celular na mão, com número limitado de filtros e o máximo de 10 segundos por publicação para expor ideias, vontades, raivas, pensamentos, pedidos e brincadeiras. Tem gente até que assiste novelas com o celular em punho, comentando cada uma das cenas - cuidado com essas pessoas, se você não está atualizado com os capítulos.

Estou falando, apenas, do modo "My Story", porque ainda é possível trocar fotos e vídeos privados com seus amiguinhos e amiguinhas. Uma oportunidade para mandar aquela foto especial que vc não tem coragem de mandar pelo zapzap porque sempre vai ter alguém pra ver essa foto no seu álbum do celular ou re-publicar (com hífen ou sem, não sei!) em algum grupo ou no "Face". O Snapchat não salva nada em seu celular, a não ser que você decida por isso e, ainda assim, se você fotografar a tela do celular, a pessoa que mandou a foto vai saber que você o fez.

Enfim, me rendi. Agora sou um Snapper também. Favor não confundir com Sniper, porque a última vez que empunhei uma arma de fogo foi há 21 anos, no exército, e espero que esses tempos fiquem lá atrás, guardados no fundo do baú, esvaindo-se e sendo pouco a pouco esquecido. Risos. Fiquei dramático.

Voltando ao assunto, me rendi. Tenho visto muita gente que conheço que está do outro lado do mundo, do continente ou da cidade, com relatos e histórias que prendem mais que qualquer programa desses que a apresentadora fica lendo as revistas de fofoca da semana pra você - e ainda se entitula jornalista. #ProntoFalei

Acabei também retomando contato com pessoas queridas que, por motivos geográficos, acabamos perdendo contato. Hoje, vejo um pouco do dia a dia delas.

Obviamente, por não ser "escondido", tudo tende a ser um pouco plastificado como todas as outras mídias, mas o interessante de todo o escopo envolvido é que todos acabam expondo suas olheiras, cabelos não escovados, vozes roucas ou preguiçosas e até momentos de intimidade com seus amigos em casa ou em encontros particulares. Sem maquiagem. Sem direção de luz, de som, de imagem. Tudo nu e cru.

E você? Usa o Snapchat? Quer trocar uma ideia comigo?
Me segue: rick0211

quinta-feira, 16 de julho de 2015

12º Aniversário


Com alto e baixos, aparições e desaparecimentos, esse blog completa, hoje, 12 anos de existência. Com uma ideia original de apenas postar algumas experiências minhas, acabei trazendo para minha vida real algumas pessoas que se tornaram amigos, mesmo que virtuais.

Trocamos ideias, compartilhamos fatos, damos risadas de coisas em comum, nos aproximamos.

Mas, o mais importante é que houve uma descoberta de inteligência na vida virtual. Não apenas teste de personalidade, o significado oculto do seu nome ou como você seria se tivesse nascido em Júpiter.

Isso, com certeza, faz com que eu repense todas as vezes que já imaginei tirá-lo do ar.

Está é apenas uma mínima publicação do que já passou por aqui. Não queria que esse 12º aniversário passasse em branco. Afinal de contas, o meu pequeno mundinho virtual acabou de entrar em sua adolescência.

Será que agora teremos mais questionamentos, mas indecisões, mas dúvidas? Será que isso provocará algumas mudanças estruturais? Mudanças em seu próprio conceito? Não sei. Apenas sei que estou grato de um dia ter decidido começar a expressar os meus pensamentos em palavras. E também sou grato às pessoas que já dedicaram, dedicam ou vão dedicar algum do seu precioso tempo para ler as insanidades dessa criança que aqui escreve.

Obrigado a todos que já passaram por aqui. Prometo voltar. Não sei quando. Mas volto.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Sobre Hedwig, The Musical

Espetacular.

Desde o momento que entra no palco até o momento de sua saída, Michael C. Hall surpreende.

Num primeiro momento pela maquiagem que mal o deixar ser reconhecido. Em outro, pelos trejeitos, caras e bocas que empresta ao seu personagem.

Sua voz também imprime uma riqueza ao personagem que, com sotaque alemão, conta sua trágica história de forma lúdica e, ao mesmo tempo, hilária.

Com interações pontuais com a plateia - alguns podem até achar agressivas - ele comanda um espetáculo de luz, cor e música, muita música.

Hedwig and The Angry Inch saiu do filme depressivo e angustiante para os palcos e tomou a forma de uma performance escandalosa e escancaradamente broadwayana.

Um luxo. Um must see.

(Sobre Hedwig, The Musical em 17/dez/2014 no Teatro Belasco, NY)